UMA IDEIA NÃO MORRE. SINGER VIVE!

Roberto Marinho Alves da Silva[1]

Ronalda Barreto Silva[2]

 

Apesar da falta que Paul Singer nos faz, ele vive no importante legado que deixou. É hoje, ele, também, uma ideia e uma ideia não morre!

Singer foi um intelectual orgânico da classe trabalhadora: ao mesmo tempo um cientista, crítico e revolucionário que sonhou com uma sociedade de iguais e, nesse sentido, lutou pela justiça social, pela economia solidária, pela cooperação entre os trabalhadores para que os resultados do progresso sejam distribuídos de forma igualitária, sejam de propriedade do conjunto da humanidade em “um novo modo de produzir e viver em cooperação de maneira sustentável”.

Entendia que, para resgatar homens e mulheres que são todos os dias descartados pela sociedade do capital, o trabalho autogestionário e solidário deveria ser desenvolvido em dimensões nacionais. Assim, Singer, enquanto educador, conduziu a Secretaria Nacional de Economia Solidária, propondo uma nova prática social: a solidariedade como opção consciente por outro modo de produção, com a valorização do trabalho como atividade humana geradora de realização pessoal e de novas relações interpessoais.

Dessa forma, Paul Singer vislumbrou a economia solidária como um ato pedagógico. Entendendo que a valorização do pensamento e do saber de cada um e cada uma constitui um aspecto fundamental nas relações de produção da vida, comungava com Paulo Freire na opinião de que esse é o caminho para envolver as pessoas no processo de produção do conhecimento, a partir de experiências concretas. Considerava, portanto, que “o verdadeiro aprendizado se dá com a prática, pois o comportamento econômico solidário só existe quando é recíproco”. Defendia, então, que, recuperando as práticas e os valores das iniciativas econômicas solidárias, os pobres podem assumir a condição de sujeitos da transformação social que possibilita o resgate da humanidade.

Com esse pensamento, manifestava a preocupação de que a economia solidária fosse um processo com características de um movimento a partir da sociedade. Não acreditava que o Estado é ou deveria ser o protagonista da expansão da economia solidária ou que viesse a substituir a energia criativa da sociedade. No entanto, tinha consciência de que as políticas públicas são via de concretização de direitos que a economia solidária deveria conquistar de forma emancipatória e não de dependência. Por essa razão, defendia que as iniciativas de políticas públicas não fossem uma imposição ou decisão de alguns "iluminados", mas uma construção dialogada, forma adotada para operacionalizar a SENAES.

Como ato pedagógico em si, a economia solidária prepara os trabalhadores e trabalhadoras para assumir efetivamente e com autonomia a condução coletiva e democrática dos empreendimentos. Essa era uma preocupação de Singer diante dos grandes desafios internos (sobrevivência e conflitos humanos) e externos (relação com mercado e com um ambiente cultural e político desfavoráveis) que os empreendimentos enfrentam. A participação exercida nos empreendimentos extrapola, portanto, para os espaços de poder e decisão, implicando em melhoria da qualidade de vida da população.

Nesse difícil momento histórico, de disseminação de ódio e da intolerância, lembrou-nos que a Economia Solidária é produzida tanto por convicção intelectual como por afeto pelo próximo, com o qual se coopera: “havendo respeito pelos diferentes, a diversidade alarga os horizontes dos engajados na economia solidária e os torna mais capazes de extrair dos avanços e recuos, dos ganhos e das perdas os ensinamentos que facilitam a convivência e afiam a inteligência coletiva para o enfrentamento de novos desafios".

Nos últimos tempos, com o golpe em curso, suas preocupações aumentaram em relação às incertezas causadas com o rompimento democrático no Brasil, o aumento do desemprego e o futuro da economia solidária. Pela memória de Singer, fazendo justiça com o seu pensamento e sua práxis, na defesa da democracia, podemos bradar:

 

FORA TEMER! LULA LIVRE! NENHUM DIREITO A MENOS!

 

 

 

[1] Professor Associado da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, fez parte da equipe da SENAES de 2003 a 2016.

[2] Professora Adjunta da Universidade do Estado da Bahia, coordena a Incubadora Universitária de Economia Solidária (INCUBA) da Rede Unitrabalho.

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